A iconografia musical no século XIX

A iconografia musical no século XIX

A música no século XIX tem como objetivo a emancipação, busca a idealização e romantização da música.
Tem grande influência da genialidade de Beethoven.
E a música está afastada das questões mundanas, é ela mesma criada por um ser social: o músico.

O compositor Franz Liszt tocando para uma platéia de burgueses.  Aqui representa-se como a figura do músico tornou-se importante após Beethoven.
Liszt é da época romântica na música, posterior a época clássica de Beethoven, que auxiliou a criar essa figura de músico astro, como um ser à parte da sociedade, um gênio.
Nota-se nesta obra as flores jogadas ao chão e em cima do piano em sinal de cortejo à grande figura do músico.
E também é possível notar a divisão da platéia em classes sociais.

Para proteger o discurso da autonomia da obra musical, ergue-se uma ideologia que busca concretizar na imagem do compositor uma espécie de entidade divina.
O músico se torna um artista em tempo integral, dedicando sua vida à sua criação, legando ao mundo obras musicais "puras".
As biografias e autobiografias, os monumentos, retratos e ilustrações da vida de um compositor ganham uma grande importância a partir do final do período clássico. 
O Devaneio do músico, Pettie John, 1885

Vemos nessa imagem o retrato perfeito do músico, idealizado na época Romântica. Retrato do músico como pensador, em um devaneio musical, em meio a pensamentos de sua obra.
Outra característica importante de se notar é que o músico retratado não está com nenhum instrumento a mão, apenas com papel para a composição e dotado do pensamento para criar sua musica.

O imaginário do século XIX projetou desta maneira o músico como uma figura mítica, heroica. Criando aquilo que o musicólogo Richard Leppert irá chamar de "o músico do imaginário", reforçando a importância da iconografia musical (Fonte: Música e Sociedade).
Beethoven e seus íntimos em um momento de pura transcendência espiritual, de Albert Graefle.

Aqui vemos a grande figura de Beethoven, cercado por seus íntimos em um êxtase musical, eles estão em pura contemplação enquanto Beethoven toca. Esta é a imagem criada no imaginário popular para o músico do século XIX, a imagem de um pensador, de um gênio que deve buscar as notas para sua composição em esferas mais elevadas do pensamento humano.
A partir desta época, não era mais um prestígio para o músico poder tocar para a burguesia, o cenário se inverte, passa a ser um prestígio da burguesia e da corte dispor de um músico tocando para elas, neste caso, maior prestígio quando quando se trata de um músico tão consagrado quanto Beethoven.

 Num período onde o músico se emancipa das antigas estruturas sociais que regiam sua profissão, ele se encontra ao mesmo tempo aprisionado a uma outra espécie de “patrão”: o mercado (Leppert, 2004, p. 38). Agora o músico tem que compor musicas que caiam no interesse das classes dominantes, da precoce indústria cultural, para poder sobreviver. A ideia de produto e necessidade de Steve Jobs caem muito bem neste caso, onde o compositor faz produtos exclusivos para determinados espaços.

 Como podemos ver na imagem abaixo, o cultivo da musica como algo essencial dentro da vida burguesa passa a ser fundamental na sobrevivência do músico e na construção do status social de sua profissão (Gramit, 2002, p. 18).

Antes dessa revolução musical, o músico era geralmente retratado como um profissional a serviço de um patrono, um profissional que possuía claras funções sociais. O músico era apenas um empregado, uma pessoa comum, como podemos ver na imagem abaixo.


Marin Marais retratado por Andre Bouys. A obra acima mostra somente a  figura do músico como trabalhador e um ser centrado em seus afazeres, não é possível ver um ser dotado de divindade, mas sim um ser humano normal que compõe para a sociedade como parte de seu trabalho.

Joseph Haydn – Provavelmente na casa dos Esterházy: nota-se aqui que o músico é apenas um serviçal contratado para prover entretenimento para a corte. No caso, os Esterházy patrocinavam Haydn, que estava sujeito às vontades da família.

Percebe-se também que o músico nesta época fazia arranjos para outros músicos e a música poderia ser dissociada do compositor, sendo apenas um trabalho.

Entrando no período romântico, percebe-se a mudança do músico ser visto como um gênio.

Liszt ao piano, por Josef Danhauser. Nesta obra percebe-se a veneração de Beethoven e a maneira como os músicos se portam: como seres providos de imaginação e potencial criativo. Liszt acompanhado por alguns burgueses destaca o valor da música para a sociedade de maior poder aquisitivo na época, estar junto de um músico era sinal de prestígio.

Nota-se que que ambos estão em êxtase e também o local onde estão está desorganizado e com objetos jogados, isso mostra o desinteresse  pelas coisas mundanas, agora o objeto de interesse é só um: a música.


Nesta obra posterior ao período romântico é possível perceber que a ideia de músico na arte se inverteu totalmente. Nota-se que as pinturas e gravuras que retratam músicos em atividades musicais agora representam pessoas simples, e não apenas gênios venerados.

Notamos através deste histórico, que o valor do músico na sociedade se alterou ao longo do tempo, mudando suas designações e importância, e sendo retratado de diferentes formas pela iconografia.

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